S.O.S. Céu Noturno /
S.O.S. Night Sky
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Adotou-se cinco de junho como o dia mundial do meio ambiente. Em torno
desta data muito se fala sobre o tema sob a forma de solenidades, palestras,
discursos, debates, reportagens na TV e artigos em jornais e revistas. Uma
vez por ano, todos parecem se transformar em obstinados ecologistas que
proclamam em coro: viva o verde!
É óbvio que as atitudes conscientizadoras são de grande importância, mas
devemos nos lembrar que os discursos meramente decorativos e o modismo
ecológico não têm mais lugar nos dias atuais. Agora é pra valer! Ou lutamos
para preservarmos o que ainda nos resta, ou veremos nosso belo planeta se
transformar em algo inóspito e isolado do Universo.
Por incrível que possa nos parecer, nem mesmo os ursos polares estão
livres das ações destrutivas do homem sobre o meio ambiente. Seus tecidos
já estão impregnados de pesticidas. Inúmeras espécies animais caminham
céleres para a extinção. Os desmatamentos continuam a devorar nossas
florestas, com a conseqüente expansão das áreas de erosão e desertificação.
Assistimos a um crescimento vertiginoso do número de veículos automotores
circulando em todo o mundo, lançando cada vez mais poluentes na atmosfera
e provocando seu aquecimento. A população humana cresce mais que a nossa
capacidade de de produzir alimentos e já há falta de água potável em
diversos países. As fontes alternativas de energia representam ainda uma
pequena fração do nosso potencial de geração de eletricidade. Enquanto isso,
a construção de barragens continua a destruir habitats, pondo em risco a
continuidade de espécies animais e vegetais; as termelétricas persistem
lançando gás carbônico no ar e as usinas atômicas produzem montanhas de
lixo nuclear, das quais não sabemos como nos livrar.
Além de todas essas ações degradantes do homem sobre a natureza, há uma
outra muito evidente, mas ignorada quase completamente: a poluição luminosa.
Provavelmente você jamais viu ou ouviu este termo. Contudo, o problema
existe e apesar de, a princípio, não afetar nossa saúde, nem ameaçar a
sobrevivência das espécies, está destruindo uma imensa riqueza natural:
o céu noturno. Isso mesmo! A luz gerada por lâmpadas mal guarnecidas e,
por vezes, superdimensionadas, que deveria iluminar apenas os logradouros
públicos, é lançada em todas as direções, inclusive para o alto, produzindo
uma espessa cortina luminosa, que nos impede de contemplar a beleza singular
dos astros, o que compromete as pesquisas astronômicas, além de representar
um desperdício de energia da ordem de bilhões de dólares anuais em todo o
mundo.
Para compreendermos a importância das estrelas para o homem, não precisamos
ir muito longe. Basta olharmos para nossos símbolos nacionais, que estão
impregnados delas. Nossa bandeira exibe um mapa celeste, o céu do
Rio de Janeiro no instante da proclamação da república. O hino nacional
exalta nosso "formoso céu, risonho e límpido, onde a imagem do Cruzeiro
resplandece...".
Você já imaginou nossa bandeira sem estrelas, com o azul celeste cedendo
lugar à luz dourada do vapor de sódio? Você teria orgulho em cantar o hino
nacional, mesmo sabendo que nosso céu já não é mais tão formoso, que está
ficando tristonho e poluído, onde a imagem do Cruzeiro não resplandece como
outrora?
Sem dúvida, estamos numa ocasião bastante propícia para que as pessoas
reflitam sobre as atrocidades a que estamos submetendo nosso planeta, para
que estabeleçam vínculos com o céu noturno e clamem e ajam pela preservação
desses santuários que a natureza levou bilhões de anos para produzir. Esta
deveria ser uma atitude natural para todos nós, como o simples ato de comer,
dormir, caminhar...
É de suma importância que todos os indivíduos passem a se enxergar não
apenas como simples habitantes do planeta Terra, mas, sobretudo, como
cidadãos do Universo. Não podemos nos alienar dos processos cósmicos,
dos quais somos partes integrantes e importantes. Quando nos situamos neste
contexto, passamos a ver as coisas com mais clareza. Percebemos que, em
escala cósmica, somos absolutamente iguais uns aos outros, infinitesimalmente
pequenos e infinitamente ignorantes. Todos aqueles que tiverem coragem e
humildade suficientes para assim procederem, terão dado seu primeiro passo
rumo ao autoconhecimento, canal único para a compreensão da natureza
cósmica do ser humano. Como cidadãos do Universo temos direitos e deveres,
que, a seu tempo, todos compreenderão. Só assim seremos verdadeiramente
livres, fraternais e sábios suficientemente para nos despojarmos desta
ferocidade que nos cega a ponto de destruirmos nosso próprio lar. Neste dia,
poderemos alcançar a utópica paz universal.
Vamos salvar nosso planeta! Vamos salvar as estrelas! Viva o Cosmos!
(Este texto, de autoria de Odilon Simões Corrêa, foi publicado no jornal Correio de Araxá, edição de 8 de junho de 1996)